Amar em Braille

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Fechemos as pálpebras por instantes, façamo-nos guiar pelos restantes sentidos. Assola-nos o medo, é o eco do desconhecido, encarquilha-se o corpo com receio do que não se vê, não se prevê. Todo um prólogo de sentimentos cegos, que chegam sem aviso prévio. Façamos um intervalo da luz. Ausência de cor, de forma. Como será viver num mundo privado destes pincéis? Como serão os sonhos? Será que são sonhos com mais toque, sentimento e cheiro? Como se sonha? Como imaginarão uma tela de cor? Um Monet? Os girassóis de Van Gogh? E os rostos? Lê-se as linhas do rosto com minucia epidérmica até esboçarmos um esquiço? E a natureza? Como se contempla a infinidade do mar? A linha do horizonte? Como se imaginam as figuras nas nuvens? Pode-se amar o que não se vê? Como diria Pitigrilli, numa das suas histórias no Café de la Paix “Chegou a Primavera e eu não a consigo ver!”… sentimentos que vivem na negritude da escuridão. Por certo que o horizonte visual não será distração, concentrando-se e apreciando outros pormenores, não dizia Saint-Exupéry que o essencial é invisível aos olhos? O essencial e o invisível. Uma osmose nas suas palavras. Apenas se sente, sentimentos invisíveis. Deve-se sentir muito mais. Todo o substrato emotivo deve ser galvanizado por essa privação, colocando um fermento avassalador no sentir, nos sentimentos!

Fátima Espadinha nasceu em 1959. É natural de Ponte de Sôr, tem sessenta e seis anos e veio para Lisboa há quarenta. Fátima sofre de anoftalmia. Uma condição rara, caracterizada pelo crescimento orbitário deficiente, hipoplasia do globo ocular, além de fundo de saco conjuntival raso e alterações palpebrais. Os estudos epidemiológicos e genéticos, mostraram prevalência de 21/100.000 nascimentos. Anoftalmia é o termo médico do cerrar das janelas da alma.

-“Tem iscas? Quero um prato de iscas! Mas só com uma batata, e pouco molho! Só uma batata ah?”- Reitera ela prontamente para não cair em esquecimento a sua vontade.

Tudo decorria com normalidade, com movimentos graciosos num restaurante na rua dos Correeiros. Existia já toda uma coordenação invisível aos olhos mais treinados. O lugar dos talheres, do copo, a proximidade da mesa… existia um estudo em braille de todas arestas que a confinavam.

Quem caminha na Rua Augusta não fica indiferente à sua melódica sediada no nº 202. Trocou as comuns palavras “Tenha a bondade de me auxiliar” pela sua música que não se vê, mas que se ouve no decorrer da extensão da rua. Fátima gosta de ler, O nome da Rosa de Umberto Eco foi o primeiro livro mencionado, a seguir à Granja do silêncio de Paul Bodier, “Gosto de coisas esotéricas” confidenciava-me ela. De ouvido apurado, aprecia Amália, Ana Moura, Pavarotti e Placido Domingo. Vive com três cães e cinco gatos, de pijama é socialista e benfiquista, um amor que nutre há muito, o primeiro desde 6 de Dezembro de 1982. Acompanhada por Fátima, sua amiga e fiel companheira, faz todos os dias o mesmo percurso desde o Cacém até à baixa Pombalina. É o seu trabalho.

Mãe de uma filha com a mesma privação, apenas pediu a Deus quando descobriu que estava em estado de graça, que se tivesse algum problema, que fosse igual ao dela, pois saberia como cuidar. Deveu a maternidade à sua mãe, que sempre a ajudou, tendo agora uma grande família.

-“É um café em chávena fria se faz favor!”- ouve-se a sua voz no restaurante enquanto a observo sem ser discreta. Todos os seus movimentos eram plácidos.

-“As pessoas acabam por apurar outros sentidos, certo?”- pergunto eu curiosa mergulhada na imberbidade das palavras soltas que ouvimos de lábios prosaicos.

-“Depende se não são estúpidas!”- Responde-me ela prontamente com o latejar de um sorriso malandro nos lábios. Ninguém fica indiferente ao seu sentido de humor tão peculiar.

Tudo isto se passa enquanto guarda as moedas de dois euros na sua caixinha, chamando-as de “patinhos”. Pois se atentarmos para o número 2 afigura-se a um pato nos seus traços esguios, imagem que nunca tinha percecionado com os olhos, mas que para ela, que vê também com os dedos, era uma constatação tão antiga e óbvia…

Escorre-me pela alma a constatação de que habitamos o mesmo espaço mas em realidades diferentes que se vão entrosando consoante a nossa sensibilidade. É tudo uma questão de permeabilidade de sentimentos. Se fossemos todos cegos o que realmente importaria? A marca das roupas? Uma casa requintada? Um carro caro? A ostentação? Nada disso teria interesse… alimentar-nos-íamos de sentimentos. As pessoas apaixonam-se pela forma como são tratadas, pelas emoções que mobilam o nosso interior. Não é a retina que fica

impressionada, ou a maternidade de figuras que ela gera, mas sim o âmago das mesmas. Fátima consegue ensinar-nos a acender a luz numa sala escura, descortinar-nos todo um mundo que apenas se vê em Raio-X. Está tudo ali… apenas precisamos de ouvir, sentir e ver, com o coração. Ela tem esse condão, mesmo tendo um mundo inteiro vedado aos seus olhos, as suas perceções não são forjadas pelo insignificante, não fica pendurada no supérfluo, a sua visão é muito clara e sentida, ela gravoteia até um lugar onde se ultrapassa a névoa. Não há neblina a confundir. É um lugar onde a fibra da verdade é sólida. A minha perceção foi toldada. Não irei mais olhar com os meus olhos para alguém que não me pode ver. Vou fechá-los e vou sentir com mais tato. Vou tentar mergulhar nesse mundo de verdade escrita em braille e embarcar cegamente na intuição da emoção!

Texto: Regina de Azevedo Pinto

Fotos: José Ferreira

 

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