Amália

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Artista universal, Amália Rodrigues (1920- 1999) é uma das personalidades mais importantes da história da música do século XX. A sua carreira internacional foi das mais longas e globais de todo o século XX.

Em pleno século XXI, no Centenário do seu nascimento, o legado de Amália Rodrigues permanece vivo e intemporal e apresenta-se, em todo o seu esplendor, como uma obra aberta, simultaneamente popular e erudita, antiga e moderna, portuguesa e universal.

Amália estreou-se a cantar na Marcha de Alcântara, em 1935, e fez de Lisboa a cidade mais cantada do mundo. Desde a sua estreia profissional, Amália foi um fenómeno de popularidade. Arrebatou plateias, acendeu paixões e suscitou os mais animados debates. No pós-guerra, Amália Rodrigues era já a grande figura de referência no panorama musical português. Com um sucesso absoluto em Portugal, a sua carreira internacional foi das mais apoteóticas e das mais gloriosas de todo o século XX.

O mundo foi o seu palco natural e Amália trouxe também muito do mundo para o Fado e para a cultura portuguesa. A sua voz foi um instrumento privilegiado para cantar toda a poesia portuguesa, do repertório trovadoresco e renascentista à criação literária contemporânea.

Em Espanha, no Brasil, no México, nos Estados Unidos, em França, Itália ou Japão, Amália Rodrigues alcançou uma consagração sem precedentes, sucessivamente aclamada e idolatrada pelo público e pela crítica. Em todo o mundo e ao longo dos anos, Amália Rodrigues recebeu os mais prestigiados prémios e as mais altas condecorações.

Portugal e os portugueses reconhecem nela a altura de um símbolo coletivo.

Plasmada no seu vastíssimo património discográfico, a voz de Amália continuamente sugere novos modos de sentir e de entender as emoções, num inventário ilimitado de sentimentos. Com ela aprende- mos que a aproximação da poesia com a música, longe de ser incómoda, participa de uma inspiração mais livre, permanentemente aberta ao mundo.

Desafiando todos os cânones da música popular portuguesa, Amália trouxe ao canto as palavras da nossa poesia erudita, dos poemas trovadorescos e renascentistas à criação literária contemporânea. Na sua voz superlativa habituámo-nos a ouvir Luís de Camões, Pedro Homem de Mello, David Mourão-Ferreira, José Régio, Alexandre O’Neil, Ary dos Santos ou Manuel Alegre, e a compreender a inesgotável dimensão do seu génio trágico.

Propondo múltiplas partidas e chegadas, o vasto património fonográfico de Amália Rodrigues devolve-nos o papel fundamental que o Fado pode ter no nosso olhar sobre nós próprios e na nossa capacidade simultânea de sermos quem somos e de estarmos permanentemente abertos ao mundo.

No biénio de 2020-2021 a Câmara Municipal de Lisboa celebra o Centenário do seu nascimento através de uma vasta programação estruturada a partir do legado plural de Amália, que a afirmou, há muito, como uma das maiores criadoras dos tempos modernos.

Ao longo de uma extraordinária biografia artística, a voz de Amália dialogou abertamente com criadores de todas as artes: poetas, músicos, pintores, escritores, cineastas ou encenadores. Nesse sentido, o programa das Comemorações do Centenário de Nascimento de Amália Rodrigues – que se estenderão pelo ano de 2021 – foi pensado numa perspetiva multidisciplinar, da música ao teatro, do cinema e da dança às artes plásticas, das exposições às edições de discos e livros, da realização de conferências aos programas educativos, num cruzamento de olhares sobre um legado plural onde todos podemos reconhecer a expressão mais universal das nossas emoções.

Nos cem anos do seu nascimento, a voz de Amália continua a pertencer ao nosso presente e ao nosso futuro. O seu canto permanece um apelo de descoberta inscrito na memória das próximas gerações. As Comemorações do Centenário de Nascimento de Amália Rodrigues serão, seguramente, uma ocasião ímpar para construirmos uma mais nítida e fundada consciência da importância do seu legado na cena cultural contemporânea.

Por Catarina Vaz Pinto

Vereadora do Pelouro da Cultura e Relações Internacionais da Câmara Municipal de Lisboa

Ilustração: José Almeida

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