Amália, uma Portuguesa do Mundo

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Uma mulher genial, de sensibilidade e inteligência ímpares, com uma voz e timbre únicos e belos que soube traduzir, em qualquer canto do mundo, como ninguém o que é ser português.

No ano do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, este pode ser um retrato resumido de uma das mais importantes mulheres da Cultura portuguesa do século XX que se projeta como fonte de inspiração e de contemporaneidade no presente e no futuro. Nascida em 1920, no tempo das cerejas, na Rua Martim Vaz em Lisboa, Amália da Piedade Rodrigues continua a ser uma mulher portuguesa do mundo. O grande desafio, hoje, é fazer perdurar a sua “estranha forma de vida” e transmitir às novas gerações a dimensão do legado que nos deixou, porque Amália é uma intérprete de dimensão mundial da música, da poesia, do teatro, do cinema…

No grande ecrã, no filme “Amantes do Tejo”, as pessoas apaixonaram-se pela sua voz quando interpretou “Barco Negro”, o que a levou ao Olympia (Paris) e a uma carreira internacional. “O filme deu-me o pontapé de saída para França e a França deu-me o pontapé de saída para o Mundo”, disse a Vítor Pavão dos Santos para a sua biografia.

Indiscutível símbolo da portugalidade no mundo, Amália orgulhava-se de saber que japoneses e coreanos começaram a aprender português por sua causa. A artista imortalizou e elevou ao povo português poetas como Luís Vaz de Camões, David Mourão Ferreira, Alexandre O ́Neill e Pedro Homem de Mello, cantando os versos por eles escritos. Amália foi ainda mais longe, interpretando, além de canções populares portuguesas, os seus próprios versos: “Entrei na vida a cantar” e “Estranha forma de vida”, entre outros.

Com um percurso de vida tão rico, é difícil mencionar todas as digressões e todas as histórias que viveu. Porém, na Casa Museu faz-se uma verdadeira viagem à vida de Amália Rodrigues e recria-se o seu dia a dia público e íntimo: podem apreciar- -se os seus vestidos e joias de palco, os balandraus que usava e outros objetos pessoais, os seus prémios e distinções… Cada peça materializa a sua presença e revela-nos a sua personalidade.

Em pleno século XXI, duas décadas após o falecimento de Amália, as gerações mais novas continuam a entrar na sua Casa da Rua de São Bento e a descobrir uma mulher única com um sentido de humor inigualável e a encontrar nela uma grande inspiração. É, também, assim que a Fundação Amália Rodrigues (FAR) olha para a sua Fundadora e prossegue com o trabalho de defesa do seu nome e de cumprimento da missão que a artista definiu para a Fundação – ajudar os mais desfavorecidos.

A Fundação

Amália deixou escrito em testamento, redigido em 1997 após a morte do seu marido César Seabra, a vontade de instituir uma Fundação com o seu nome cuja finalidade seria ajudar os mais desfavorecidos, instituições de beneficência e de solidariedade social. Esta Fundação deveria criar um museu, na sua casa da Rua de S. Bento em Lisboa, denominado «Casa Museu Amália Rodrigues», com todos os objetos da sua casa de habitação. Assim aconteceu.

Fundada a 10 de dezembro de 1999, a FAR assume todos os dias o claro compromisso de honrar a vontade da sua Fundadora. E, por isso, hoje dedica-se à preservação, estudo e divulgação de todo o património que ficou ao seu cuidado.

A FAR – cujo Conselho de Administração, Conselho Geral e o Fiscal Único da FAR exercem a sua atividade em regime pro bon não tem recebido, até ao momento, quaisquer comparticipações do Estado nem de outras entidades. O seu financiamento é assegurado pelas receitas geradas nas entradas da Casa Museu, pelo rendimento obtido através dos bens que Amália legou à Fundação e pela promoção de eventos, publicações literárias, álbuns e registos fonográficos e videográficos, entre outros, associados ao nome de Amália Rodrigues. Isto, porque a FAR é detentora dos direitos de nome e imagem da artista.

Apesar das dificuldades económicas da FAR desde o seu início, com resultados de exploração negativos em quase todos os seus anos de existência e sem apoios públicos, foi possível colaborar na construção e equipar um posto médico e de enfermagem no Centro Sociocultural do Brejão, em Odemira onde Amália e César tinham uma casa de férias. Recentemente, resolveu-se também o litígio de 13 anos com a Casa do Artista e entregou-se um donativo para apoio ao seu funcionamento. Estas instituições foram mencionadas no seu testamento como entidades beneficiárias dos lucros da FAR e os seus responsáveis passaram, desde 2020, a integrar o Conselho Geral da FAR. Para além destas, a Fundação tem apoiado outras instituições de caráter social: Ajuda de Berço, AMI, IPO, Exército de Salvação, entre outros.

Em ano de centenário do nascimento de Amália, a vontade de associação à causa da FAR, por parte de diversas entidades, tem vindo a crescer. E, para se conseguir preservar todo o património legado por Amália à Fundação, será necessário re- correr a reais apoios (públicos e privados) que acreditamos conseguir vir a obter no sentido de proceder a, entre outras necessidades, uma requalificação do edifício da Casa Museu, nomeadamente ao nível da acessibilidade a pessoas com mobilidade reduzida ou necessidades especiais de mobilidade.

A Fundação está a fazer a sua parte: constituiu uma equipa de três jovens investigadores que trabalha a tempo inteiro no acervo museológico material e imaterial – estudo, catalogação, preservação, divulgação. Estudar Amália é uma forma de estar à altura da sua dimensão e importância.

Comemorações do centenário do nascimento de Amália

Ainda antes do ano do centenário, a FAR apoiou em 2019 a realização dos concertos “Amar Amália – 20 Anos de Saudade”, da Vibes & Beats, na Altice Arena (Lisboa), no Multiusos de Guimarães e na Super Bock Arena-Pavilhão Rosa Mota (Porto). Em outubro desse ano, o Brejão recordou Amália numa iniciativa anual, “Odemira recorda Amália”, por altura da data da morte de Amália Rodrigues, que incluiu visitas à casa de férias da artista, uma missa campal cantada, a projeção do filme “Amália” e uma noite de fados.

Ao nível de edições comemorativas, a Tissot juntou-se à Fundação Amália Rodrigues e, em novembro de 2019, lançou exclusivamente para o mercado português edições limitadas de dois modelos de relógio comemorativo: um para mulher e outro para homem, num total de 3840 unidades (1920 de cada).

A FAR previa que 2020 – o ano do centenário – viesse a ser preenchido por diversas iniciativas de homenagem a Amália.

Uma dessas iniciativas era a exposição itinerante “Bem-Vinda Sejas, Amália”, concebida pela Fundação, que acabava de inaugurar em Braga e na Maia, quando Portugal se viu obrigado a ficar em casa devido à pandemia. Nesse seguimento, a Casa Museu foi encerrada temporariamente, de acordo com as orientações da DGS, e a maior parte das atividades de homenagem ao centenário do nascimento de Amália planeadas foram adiadas.

No entanto, em abril, estreou na RTP o programa “Em Casa D’Amália”, que pre- tendia relembrar as célebres tertúlias que decorriam nesta mesma Casa no tempo de Amália e que acompanhou os serões de sexta feira de muitos portugueses durante o confinamento obrigatório – estes programas tiveram uma audiência acumulada de 4,73 milhões de espectadores, na primeira exibição, e foram depois retransmitidas. As gravações do programa ocorreram ainda em 2019 na Casa Museu, por onde passaram os mais variados nomes da música portuguesa: Dino D’Santiago, Kátia Guerreiro, FF, Jorge Fernando, José Cid…

Passada a primeira vaga da pandemia, que infelizmente ainda nos afeta, a Casa Museu Amália Rodrigues voltou a abrir ao público no fim de maio e a FAR retomou as iniciativas de homenagem planeadas para o ano de centenário.

Em junho de 2020, a Ouronor lançou uma linha de jóias Amália comemorativa e o Correio da Manhã distribuiu, gratuitamente com o seu jornal, o Livro de Ouro Amália – resultado do trabalho feito em conjunto com a FAR.

A 23 de julho de 2020, assinalou-se o dia do centenário do nascimento de Amália com o lançamento da emissão filatélica de selos comemorativos dos CTT no Panteão Nacional e com um concerto de homenagem à artista, na Herdade do Brejão, transmitido em direto pela RTP (com uma audiência de 500.000 espectadores) e pela Antena 1. Nesse mesmo dia, a Assembleia da República assinalou, por unanimidade, o Centenário de Amália.

Este dia marcou também a retoma da itinerância da exposição “Bem-Vinda Sejas, Amália” pelos Municípios portugueses, abrindo ao público em Viana do Castelo e no Fundão. Depois, prosseguiu em Odemira (Brejão), Ourém, Lisboa (Santa Casa Alfama), Lagoa, Alter do Chão, Crato e Portimão. Temos já agendamentos para 2021, sendo que disponibilizamos o acolhimento desta mostra até ao final desse mesmo ano.

No fim de julho, a Prooptica colocou no mercado uma coleção de óculos inspirada em Amália e, em novembro, foi a vez de a Adega Mayor iniciar a comercialização do vinho “Amálias” e de a âme moi revelar as malas de senhora inspiradas na elegância clássica de Amália.

A FAR tem outras iniciativas de homenagem previstas até ao final de 2021, também incluídas na programação oficial de celebração da vida e obra de Amália do Governo Português. É por vontade de Amália que a Fundação existe, honrando o legado que nos deixou e cumprindo a missão para a qual foi criada pela sua Fundadora – ajudar os mais desfavorecidos. Amália é, e será sempre, uma mulher de futuro

 

Por Vicente Rodrigues

Presidente da Fundação Amália Rodrigues

Fotografia: Voto Saudação Amália Rodrigues. Foto: Assembleia da República

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