Alterações climáticas: do plano à ação

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Há pouco mais de um ano, uma adolescente sueca começou a protestar sozinha em frente ao Parlamento do seu país. Ao faltar às aulas todas as sextas-feiras, a rapariga, então com 15 anos, pretendia chamar a atenção para a inércia dos líderes mundiais no combate às alterações climáticas.

A esta adolescente juntaram-se muitos outros jovens em idade escolar, primeiro na Suécia, depois em vários países europeus, de seguida, um pouco por todo o mundo. A crescente exposição deste protesto nas redes sociais fez com que a indignação de Greta Thunberg saltasse fronteiras, tornando-se um movimento mundial que, de imediato, chamou à atenção dos líderes políticos. A “Greve pelo Clima” merece agora a maior atenção da imprensa, é viral nas redes sociais e espelho do descontentamento das gerações mais jovens, e não só, pela falta de ação climática daqueles que conduzem os destinos políticos de todos.

Este inédito fenómeno global de mobilização em torno da emergência climática coincide com uma das grandes prioridades da agenda e da liderança do secretário-geral das Nações Unidas: o combate às alterações climáticas.

Muito recentemente, António Guterres visitou a região da Pacífico, Moçambique e as Bahamas, algumas das áreas recentemente afetadas por episódios climáticos cada vez mais intensos e destruidores, tendo a oportunidade de ver os seus efeitos devastadores. Com efeito, a subida do nível das águas do mar, as secas cada vez mais prolongadas, o desaparecimento dos icebergs, a maior ocorrência de tempestades tropicais e de furacões, e o branqueamento dos corais são apenas alguns dos exemplos que, de acordo com a ciência, estão relacionados com as emissões de gases para a atmosfera e a forma como estas influenciam o clima.

Com o objetivo de mobilizar os decisores mas também os empresários, as organizações internacionais, as organizações não-governamentais e todos as partes relevantes, o secretário-geral convocou a Cimeira de Ação Climática para que os Estados-membros apresentassem planos concretos para a redução de emissões de gazes para a atmosfera e para a adaptação a um novo paradigma económico que se baseará numa economia mais verde e mais respeitadora dos recursos existentes. Neste contexto, foi também dada uma especial atenção à juventude, tendo sido organizada uma Cimeira paralela que reuniu os principais ativistas e associações de jovens, e que serviu de fórum de discussão para as suas preocupações, anseios, planos de ação e formas de ativismo.

Greta Thunberg foi, de facto, uma presença marcante na Cimeira de Ação Climática que contou também com a presença de chefes de Estado e de Governo, empresários, instituições financeiras e académicas, entre muitas outras partes interessadas.

Desta Cimeira saíram muitas iniciativas que vão, seguramente, mudar a forma como o mundo irá doravante lidar com a questão das alterações climáticas, evidenciando o reconhecimento de que o ritmo da ação climática deve ser acelerado rapidamente.

Mais de 70 países e grandes economias subnacionais, como a Califórnia, comprometeram-se a ser neutros na emissão de carbono até 2050. Portugal está entre eles. Do Paquistão à Guatemala, da Colômbia à Nigéria, da Nova Zelândia aos Barbados, muitos países prometeram plantar mais de 11 mil milhões de árvores. Adicionalmente, mais de 100 líderes empresariais anunciaram que vão realizar ações concretas para alinhar as suas práticas com as metas do Acordo de Paris e acelerar a transição da economia cinza para a verde. Houve ainda um grupo constituído por alguns dos maiores proprietários de ativos do mundo, responsável pela gestão de mais de 2 biliões de dólares, que prometeu também mudar as suas carteiras de ativos para investimentos neutros em carbono, até 2050. A esta iniciativa soma-se um recente apelo de um grupo de gestores de ativos, que representa quase metade do capital investido no mundo, cerca de 34 biliões de dólares, para que os líderes mundiais aumentem os preços do carbono e eliminem gradualmente os subsídios aos combustíveis fósseis e à energia do carvão em todo o mundo.

Para além destes planos, houve ainda alguns países que fizeram saber, de forma muito assertiva, como irão impulsionar a ação climática. França, por exemplo, anunciou que não fará acordos comerciais com países que adotem políticas contrárias ao Acordo de Paris. Já o Reino Unido vai duplicar a sua contribuição geral para o financiamento internacional do clima e a China, um dos maiores emissores, garantiu que irá reduzir as emissões em mais de 12 mil milhões de toneladas anualmente. Por outro lado, a União Europeia irá dotar pelo menos 25% do seu próximo orçamento a atividades relacionadas ao clima e a Rússia irá ratificar o Acordo de Paris. Outro resultado prático desta cimeira foi o anúncio da criação da Plataforma de Investimento Climático que pretende mobilizar 1 bilião de dólares para investimentos em energia limpa, até 2025, em 20 países menos desenvolvidos.

O secretário-geral da ONU instou governos, empresas e pessoas de todas as regiões do planeta a unirem-se a estas iniciativas e prometeu continuar a lutar por maior ambição e ação, explicando que o sistema das Nações Unidas irá apoiar a implementação dos planos apresentados durante esta Cimeira, com um relatório inicial que será apresentado na COP25, que terá lugar em dezembro próximo, em Santiago do Chile.

Na sua intervenção durante a sessão de encerramento da Cimeira de Ação Climática, António Guterres constatou que, com esta Cimeira, foi dado o primeiro passo para uma ação climática à escala global, mas sublinhou que há ainda “um longo caminho a percorrer”. Para que se consigam combater as alterações climáticas de forma efetiva serão necessários mais planos concretos, mais ambição de mais países e de mais empresas. Todos, sem exceção devem participar, todos, sem exceção têm um papel importante  a desempenhar.

Por António Ferrari

Foto: UN Photo/Cia Pak

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