AC Alfaiates

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O local não poderia ser mais apropriado para um trabalho de artesãos. Um primeiro andar, no topo de uma escadaria de madeira, na Rua Direita, na rua das tendas, como se designava, na Idade Média, a principal artéria do núcleo urbano antigo de Viseu.

Espaço acolhedor, com detalhes a remeterem para a ancestralidade de uma arte, que Avelino Ferreira, não sem surpresa, acabou por entregar, de herança, ao filho Carlos, quando, há 14 anos, mais do que as iniciais dos seus nomes, decidiram juntar as seis décadas de know-how de Avelino à ousadia irreverente de Carlos e fundar a AC Alfaiates.

“Inicialmente, nem eu nem a mãe acreditámos muito que pudesse resultar, pois tinha andado a estudar para outras áreas. Mas ele lá insistiu. Na altura, disse-lhe que não dava meio ano para ele desistir. O facto é que o tempo ia passando e ele dizia que cada vez gostava mais do trabalho de alfaiate.” – Confessa-nos Mestre Avelino, em fato escuro completo, irrepreensivelmente engomado, com um brilho no olhar que denuncia o orgulho na persistência do filho.

Em cima da mesa, giz de alfaiate, tesouras e almofadas com alfinetes, e ao nosso redor, forrando a sala onde nos encontramos, pilhas de tecidos, puras lãs, caxemiras, algodões e linhos das mais conceituadas fábricas inglesas e italianas – Holland & Sherry, Scabal, Huddersfield, Moon, Drago, Cerruti.

Enquanto o pai assume as despesas da conversa, Carlos, também ele de fato completo, mas de corte mais ousado, calça justa e colete em tons vivos, vai verificando algumas peças e seleccionando tecidos, cedendo, respeitosamente, o protagonismo ao progenitor.

 

Como começou este seu gosto pela alfaiataria?

Avelino Ferreira – Comecei nisto, entre os 12 e 13 anos, quando, no meu tempo, todos começavam.

Mas já havia uma tradição familiar?

AF – Não, não havia tradição, nenhuma. Nasci numa aldeia muito isolada, na freguesia de Arões, e, apesar de ter sido bom aluno na escola primária, não pude seguir os estudos, porque, naquela altura, não dava para ir estudar fora. O meu falecido Pai tinha muita terra para trabalhar, mas eu não aguentava o trabalho no campo.

Não gostava?

AF – Não era “não gostar”. Não aguentava, mesmo. Desde criança, fui sempre um bocado doente, e tive de ir para uma profissão mais leve. Tinha duas hipóteses: alfaiate ou sapateiro. E lá fui aprender com um senhor, que estava a um quilómetro e meio da minha aldeia, e dei aí os meus primeiros passos. Depois, fui sempre evoluindo, porque nunca parei, nem mesmo quando andava na tropa. Os que paravam nunca mais voltavam a pegar no ofício. O mais provável era irem para o estrangeiro, e foi o que aconteceu a muitos que deixaram a profissão. Mais tarde, surgiu aqui o herdeiro, que, já com 28 anos de idade, decidiu agarrar a profissão do Pai. Fiquei satisfeito, pois está garantida a continuidade.

Quando o Senhor Avelino começou, a tradição de alfaiataria era muito grande. Havia alfaiates um pouco por toda parte.

AF – Quase em todas as aldeias havia alfaiates, que faziam calças, fatos e tudo o que fosse. O pronto-a-vestir só surge na década de 60.

Nessa altura, sentiu uma grande diferença?

AF – Sim, senti. Aliás, na altura, tam

bém eu virei para o pronto-a-vestir, quase a menosprezar a alfaiataria, embora tenha continuado sempre a fazer por medida. Mas só quando vim para Viseu é que me dediquei, novamente, apenas ao trabalho de alfaiate.

Tomou essa decisão porque sentiu que havia a vontade de voltar a recorrer aos alfaiates?

AF – Na altura, o fazer por medida estava pior do que agora. Neste momento, está a ganhar outra vez fôlego. A alfaiataria, o fazer por medida, está na moda. Começaram a aparecer jovens como o Paulo Battista, que tem feito bastante propaganda, embora seja um alfaiate diferente. Foge ao conceito clássico.

Que desafios enfrenta, hoje, a alfaiataria?

AF – A grande diferença é que, há 15 anos, só se fazia um fato para um gordo ou barrigudo. Hoje, não. Hoje, fazem-se fatos para jovens elegantes. Hoje, os clientes são muito mais conhecedores e exigentes nos tecidos que escolhem, têm acesso a muito mais informação, nomeadamente através das redes sociais. A grande dificuldade é a mão-de-obra. Há pessoas que se apresentam como alfaiates, quando a única coisa que fazem é tirar medidas, e, depois, os fatos são feitos em fábricas. Neste momento, não há quase ninguém a aprender esta arte, em primeiro lugar, porque já não há muitas pessoas que possam ensinar e, depois, porque, neste momento, os jovens querem começar logo a ganhar um ordenado. Isto é legítimo, até porque os tempos são outros e hoje estuda-se até muito mais tarde, pelo que se começa a trabalhar também mais tarde. Eu estive três anos com o meu mestre, a aprender, só depois comecei a ganhar dinheiro. Defendo que o Estado deve atribuir um subsídio para que as pessoas possam aprender esta arte. Uma hipótese seria um subsídio de 75% no primeiro ano, 50% no segundo, 25% no terceiro e, a partir do quarto ano, o alfaiate responsável ficaria obrigado a integrar essa pessoa. Olhe, vamos andando, e vamos ver como podemos sobreviver.

Carlos, como te surgiu o gosto pela alfaiataria?

CF – Bom, no fundo sempre tive.

De veres o teu Pai a trabalhar?

Carlos Ferreira – Sim, embora nunca tenha mostrado muito interesse. Mas sempre gostei de moda, e de me vestir bem. Acabei por ir estudar Gestão Hoteleira, para o Porto, mas sempre com este bichinho da alfaiataria. Até que um dia, senti que estava na hora, que era o momento de tentar.

Como foi essa experiência inicial?

CF – Foi muito boa. Foi uma decisão minha. Foi algo que queria, que não me foi imposto, pelo que é natural que tenha acabado por gostar, embora seja precisa muita paciência.

AF – Tenho sessenta e tal anos de profissão, e ainda estou a aprender.

CF – Aprendemos coisas novas todos os dias. Como não fazemos fatos standard, porque é tudo sempre feito por medida, os cortes acabam por ser todos diferentes. Um casaco de alfaiataria é completamente diferente dos de confecção. As entretelas não são coladas, os peitos são feitos especificamente para a pessoa. Por isso se diz que “aquele” casaco é apenas para “aquela” pessoa. Por exemplo, as entretelas são de crina de cavalo, logo não esticam. Num fato de confecção, têm de ser coladas, para se tentar adaptar ao corpo da pessoa. No nosso caso, é tudo feito de raiz, para ficar perfeitamente ajustado ao corpo do cliente. Como costumo dizer, os nossos fatos têm uma estrutura que permite que se aguentem em pé (risos). Além disso, é fácil fazer com que um casaco dê nas vistas, basta utilizar um tecido ou uma cor fora do normal, o difícil é fazer, de um fato azul, uma obra de arte. E é esta nossa capacidade que acaba por ser o nosso maior cartão de visita. É evidente que nos enche de orgulho, quando os nossos clientes referem que os nossos fatos são elogiados, onde quer que vão.

Como é que ganhaste a confiança dos clientes que eram fiéis ao teu Pai?

CF – A experiência de Gestão Hoteleira deu-me uma boa bagagem para lidar com os clientes, que, na sua maioria, são de classes média-alta e alta. Quem vai a um artesão, acaba por ser um cliente exigente. Essa percepção fez com que tivesse uma maior atenção aos pormenores. A arte do Mestre é a mesma, mas agora temos mais cuidado com os acabamentos. Agora já se vê muito, mas, há muitos anos, quando comecei a colocar forros de cor, por exemplo, era praticamente uma novidade. Temos de ter a capacidade de fazer um fato exactamente ao gosto do cliente, em todos os pormenores.

Não é à toa que nas outras actividades se utiliza, cada vez mais, o “feito por medida”, para definir algo que é feito especificamente para uma pessoa.

CF – Ainda há pouco tempo passei numa zona comercial e reparei que havia um grande edifício que se chamava Alfaiataria dos Móveis.

Trabalham mais para fora ou para clientes da região?

AF – Em Viseu, temos clientes bons e fiéis, mas também temos muitos de fora. Trabalhamos muito para clientes de Lisboa e Porto, por exemplo.

Como é que alguém que está no interior consegue chegar a clientes de outras geografias?

CF – Sempre contámos com a divulgação dos nossos próprios clientes, o chamado boca-a-boca, que é sempre a melhor publicidade. Mais recentemente, temos conseguido chegar a clientes, que eram mais difíceis de atingir, através das redes sociais. Facilita muito, para dar a conhecer o que fazemos e, também, quebrar a barreira do primeiro contacto, que, por exemplo, nos clientes estrangeiros, é enorme.

AF – Além de ser um grande alfaiate, na vertente de Vendas e Marketing, o meu filho é um “Ás”. Veio dar uma grande ajuda. Permitiu chegar a uma clientela que, antes, era difícil de atingir.

E agora, qual é o caminho?

CF – O caminho é deixar as coisas evoluírem naturalmente. Há algumas ideias, mas julgo que ainda não é o momento de divulgá-las. Posso, no entanto, adiantar que, neste momento, já fazemos camisas por medida e, mais recentemente, passámos a incluir sapatos na nossa oferta.

Poderá passar por abrir um espaço em Lisboa ou no Porto?

CF – Já tivemos e, na altura, a experiência acabou por não correr exactamente como queríamos. Mas é evidente que, se surgir uma nova oportunidade e, eventualmente, uma parceria que faça sentido, iremos equacionar essa hipótese. Até porque temos, efectivamente, muitos clientes nessas cidades. Para já, há sempre a hipótese de, por marcação, sermos nós a visitar os clientes que têm a limitação de não poderem deslocar-se a Viseu. Aos que continuam a vir ao nosso espaço, proporcionamos, aquilo a que costumo chamar, “turismo de alfaiataria”.

 

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