A Procissão de Santo António em Lisboa

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Diz a tradição que a 30 de maio de 1232, no dia em que Santo António foi declarado santo, menos de um ano depois da sua morte, os sinos de todas as igrejas de Lisboa tocaram espontaneamente e uma admirável alegria se espalhou pela população que saiu atónita à rua. É assim que Lisboa vai perpetuar a sua profunda relação com Santo António e não deixará esquecer nunca que foi aqui que o Santo nasceu.

A devoção a Santo António foi adquirindo ao longo dos séculos cada vez mais importância na sua cidade natal. A casa onde Santo António nasceu passará para propriedade municipal, que ergue uma capela e aí instala o Senado da cidade. A capela torna-se igreja e Santo António popular. Os documentos oficiais mais antigos que existem no arquivo municipal de Lisboa relacionados com a igreja de Santo António, datados de 1428, referem-se ao santo como Santo Antoninho, evidenciando uma intimidade e familiaridade que se estende a todas as classes sociais, a começar pela família real. D. João II e D. Manuel I irão patrocinar obras de beneficiação da igreja que por isso se passará a designar por Real-Casa. Era aí que se celebrava a Trezena a Santo António. Na véspera da sua festa, a família real costumava visitar a igreja, onde era recebida por todo o governo da cidade e homenageada com um “ramalhete” de flores e com a oferta do bodo, constituído geralmente por fogaças, doces, caracoladas e condeças. Esta visita repetia-se também a 15 de fevereiro, dia em que se celebrava a trasladação de Santo António. As cerimónias oficiais terminavam com a tourada em honra a Santo António, que a Câmara oferecia ao povo de Lisboa e para a qual eram armados palanques de madeira no Rossio ou no Terreiro do Paço.

A partir de 1599 e até 1834, por voto perpétuo do Senado da Câmara a Nossa Senhora da Penha, em ação de graças por ter protegido a cidade de uma terrível peste, realizava-se a 5 de agosto, dia de Nossa Senhora das Neves, a Procissão do Ferrolho, assim designada porque os participantes do cortejo iam batendo nos ferrolhos das casas para chamar a atenção dos moradores. Por causa do calor a procissão decorria depois da meia-noite, com a imagem de Santo António que saía da sua igreja, acompanhada pelos penitentes que iam descalços e segurando tochas acesas, até à ermida da Senhora da Penha.

Já a partir de finais do século XVII, o Convento de Santo António dos Capuchos, atual Hospital dos Capuchos, torna-se também um importante centro de devoção a Santo António que contava com a presença da família real e de todo o Senado da cidade nas suas cerimónias.

Curiosamente, sobre a procissão de Santo António, que se realizava a 13 de junho, há pouca informação. Talvez ofuscada pela imponente procissão do Corpus Christi, festa móvel que se realiza 60 dias depois da Páscoa e que a coloca muito próxima da procissão de Santo António, esta última só indiretamente é referida nas posturas municipais que vão surgindo ao longo dos séculos. No entanto, a procissão de Santo António, muito concorrida e popular, embora sem a participação da família real e da alta nobreza, é mencionada em vários relatos de estrangeiros que no final do séc. XVIII visitam Portugal e que se impressionam pela enorme multidão que a acompanha, assim como pelos comportamentos pouco piedosos de muitos dos envolvidos, aproximando a procissão de um divertimento mundano.

A procissão saía do grandioso convento de São Francisco da Cidade (atual Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado e Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa). Era composta por treze andores, entre os quais o de São Francisco, o de Santo António, o da Nossa Senhora da Piedade, e terminava com dois andores de santos negros (São Benedito e Santo António negro, também conhecido por Santo António de Noto), acompanhados por padres negros e levado por muitos negros que encerravam efusivamente o cortejo.

São ainda notícia as inúmeras procissões com a imagem de Santo António que ao longo dos séculos saía da sua igreja em ação de graças ou por súplica e oração. Em 1484 a rainha D. Leonor dirige-se ao Senado da Câmara para que mandasse fazer muitas procissões e orações por causa de uma doença grave de el-rei D. João II. Em setembro de 1625 realiza-se uma procissão em ação de graças pela canonização da Rainha Santa Isabel, saindo a imagem de Santo António da sua igreja para São Francisco da Cidade. Em 1653 foi essa imagem enviada pelo Senado em cortejo solene para Alcântara para melhoras do príncipe D. Teodósio. Em 1742 a imagem de Santo António sai em cortejo processional para a Patriarcal pela saúde de el- -rei D. João V que se achava enfermo. Já no século XIX, realiza-se uma procissão com a imagem de Santo António em 19 de setembro de 1808 em ação de graças pela libertação de Lisboa e do país. Para proteger a cidade da peste introduzida pelas tropas belgas de Soulignac, e por decreto de 5 de Dezembro de 1833, a Câmara ordena que se realize todos os anos no dia 16 de Julho uma procissão penitencial com a relíquia de Santo António a acompanhar a imagem de S. Sebastião, tradicional protetor contra este flagelo.

A extinção das ordens religiosas em 1834 levará ao encerramento da igreja e ao fim da procissão, embora permaneça a festa popular nos mercados e nas ruas da cidade. A grandiosa comemoração do VII Centenário do nascimento de Santo António em 1895, foi o argumento para se realizar novamente uma procissão onde participou a imagem de Santo António militar do regimento de Infantaria 19 de Cascais, procissão que foi assaltada por grupos anarquistas no Rossio.

No entanto, as comemorações dos centenários (do nascimento de Santo António em 1895 e da sua morte em 1931) conduzirão à reabertura da igreja de Lisboa ao culto, à proclamação em 1934 de Santo António padroeiro secundário de Portugal e à atribuição do título de doutor da Igreja a Santo António em 1946.

O século XX irá trazer um novo fôlego às festas populares, com os cortejos e as batalhas de flores, os bailaricos, os arraiais e as iluminações à veneziana, onde Santo António surge sobretudo como folião e casamenteiro.

Leitão de Barros e António Ferro reinventam as tradições. Em 1932 organiza-se o desfile das marchas populares, a partir de 1950 realizam-se os casamentos de Santo António e em 1953 é instituído o dia 13 de junho como feriado municipal em Lisboa.

Quanto à procissão de 13 de junho, toma timidamente o seu lugar a partir de 1952, embora num percurso reduzido à volta da sua igreja (Largo de Santo António da Sé, Largo da Sé, Rua das Pedras Negras, Rua da Madalena, Largo da Madalena e Rua de Santo António da Sé). Depois de passar um período de instabilidade após a revolução de 1974, a procissão assume, a partir de 1981, o percurso atual, percorrendo o tradicional bairro de Alfama.

A imagem de Santo António, anteriormente levada em ombros pelos bombeiros e agora transportada de carro, sai da sua igreja acompanhada pelas autoridades municipais, pela família franciscana e demais congregações religiosas, pela tradicional banda e por inúmeros devotos que acompanham todo o cortejo. Na Sé junta-se ao préstito a relíquia de Santo António (doada à Sé pela Basílica de Pádua em 1968), transportada sob o pálio pelo Cardeal Patriarca de Lisboa ou pelo seu representante. Frente à igreja de São João da Praça, cuja tradição refere que o templo original foi mandado construir pelo pai de Santo António em ação de graças por ter sido salvo da forca, junta-se ao cortejo o andor de São João, o mesmo acontecendo junto da igreja de São Miguel, no coração de Alfama. A procissão segue devotamente pelos becos estreitos e sobe a Santo Estevão, onde o seu andor integra o cortejo. São Vicente, padroeiro da diocese de Lisboa, aguarda a procissão nas Escolas Gerais e, depois do largo das Portas do Sol, Santiago é o último andor a juntar-se à multidão que segue Santo António. A procissão termina com um Te Deum no adro da Sé, regressando depois cada santo à sua igreja.

É este cortejo atual que é apresentado na exposição organizada pelo Museu de Lisboa – Santo António na galeria de exposições no largo de S. Julião junto aos Paços do Concelho. Mais de 300 peças da autoria dos irmãos Baraça, uma das famílias com maior tradição do figurado de Barcelos, são apresentadas integradas no sinuoso cenário de Alfama, dando cor e forma ao bairrismo autêntico que torna Lisboa tão única e especial.

 

 

Exposição Temporária A Procissão de Santo António em Lisboa Largo de S. Julião junto aos Paços do Concelho

11 de junho – 30 de setembro

De 2ª a domingo, das 10h00 às 18h00

Entrada gratuita

 

Por: Pedro Teotónio Pereira*

*Coordenador do Museu de Lisboa – Santo António

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