O livro do mês – «A Memória das Pedras» de Carol Shields 

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Título: A Memória das Pedras

Autor: Carol Shields Editor: Editorial Presença Páginas: 318 

Quando recomendamos um livro, a tendência passa, quase sempre, por indicar a mais recente novidade, ora porque todos falam nela, ora porque é um conceito de moda igualmente aplicado à literatura. Eu não digo nem sim, nem não. Digo apenas que a recomendação de um livro deverá basear-se na sua força, história e transversalidade. Se acabou de chegar às livrarias, pois que assim seja. Se já foi escrito há mais de vinte anos, pois que assim seja também. É isto que acontece na literatura, a grandiosidade capaz de tornar livros novos em velhos ou o contrário. Uma grandiosidade que caminha lado a lado com a perceção de cada um enquanto leitor, enquanto pessoa e personagem da sua própria vida. A ideia de que há um pouco de nós em cada livro não só me agrada, como me faz carimbar a certeza da literatura como analgésico para uma infinidade de dores. 

Precisamente pela grandiosidade e subjectividade que a literatura encerra, hoje decidi escrever sobre «A Memória das Pedras», de Carol Shields, uma escritora americana que nos deixou uma história intemporal, capaz de se integrar na vida de qualquer pessoa. Se isso não é proeza, quando falamos num livro, não sei o que poderá ser. 

Em «A Memória das Pedras» conhecemos a história de Daisy Goodwill. Todo o livro é uma caminhada comum, que tanto nos diz. Nascimento. Infância. Casamento. Amor. Maternidade. Trabalho. Desgosto. Tranquilidade. Doença. Declínio. Morte. Esta é a jornada de vida de uma mulher que, em todo o tempo, se procurou a si mesma nos lugares mais improváveis. 

O livro começa com um excerto de «The Grandmother Cycle de Judith Downing, Converse Quarterly, Autumn», que nos diz: 

Nada do que ela fazia ou dizia 

era exactamente o que queria 

mesmo assim a sua vida era como um monumento 

esculpido no decline da luz disponível 

girando ao som 

da música possível 

Lido todo o livro, o leitor deve retornar a esta página, para este excerto. É aqui que reside na totalidade a essência de Daisy. Uma mulher que nasceu perdida, como obra do acaso, de uma mãe também ela imprevista nas matérias da maternidade e do amor ao seu pequeno homem. O seu nascimento seria a prova de que os inícios constroem os fins. 

O casamento dos seus pais surgiu de um acaso. Uma mulher entregue desde pequena a uma casa de acolhimento e que, um dia, e com uma porta estragada, conhece o pedreiro que iria resolver o problema. Resolveu-lhe também a solidão, propondo-lhe casamento e uma casa para viver. Aceitou-o como quem aceita uma flor ou uma pedra. Era uma mulher que vivia para a comida, para a cozinha, ansiando despertar no marido o paladar certo, com a comida certa, com um pudim novo. Era a sua forma subtil, inconsciente, de lhe mostrar amor. 

Um dia cai ao chão, dores que desconhece e um judeu que a ouve e abre a porta. Uma menina nasce e a mãe desiste de lhe viver, quem sabe, numa troca justa de quem nunca se agarrou tanto assim à vida. Morreu mãe sem saber que na barriga lhe nascia alguém. 

Nasce Daisy Goodwill, que na ausência da mãe, acaba resgatada pela vizinha e amiga Clarentine. Viverá com esta nova mãe até ao momento em que Deus decide trocar- lhe as voltas. Quererá o destino que se afaste daquele lugar, retomando a sua vida ao lado de um pai, desde sempre desconhecido, que vivera a vida ladeada em duas direções apenas: casa-trabalho. Também ele, perdido nas afrontas de uma morte inesperada, desespera e acolhe uma novidade revestida de menina mulher. Foi quando a vida voltou a empurrá-la na direção do seu pai, agora com melhores condições de trabalho, que Daisy começa a crescer em novas possibilidades: uma vida despojada de sacrifícios, a oportunidade de estudar e o peso determinante das amizades que então conseguira criar. Mas o vazio é palavra de ordem quando lemos Daisy. Ao sabor do vento é a condição que melhor lhe cabe. Desde o início, a sua vida foi marcada pelo peso do seu passado, como pedras, e esperanças como flores, as quais aprendeu a cuidar com Clarentine. No intervalo entre passado e presente, fica- lhe sempre o travo amargo de um futuro sem vislumbre. 

Será no convívio com as suas amigas, entre tardes de conversas soltas, que começará a despertar para a curiosidade dos amores. Poderia um amor mudar essa sensação de perda constante? O amor surge, mas quis a vida, uma vez mais, passar-lhe a rasteira da certeza de que a hora certa ainda não chegara. Um casamento de dois dias que a envelheceu um pouco mais, uma queda repentina para a levar ao mesmo lugar de sempre, o lugar da incerteza. 

O tempo passou e com ele a resignação dos cansados da alma. A viver com o seu pai e a sua nova esposa, Maria, mais nova, mas sem idade definida, Daisy continuou a vislumbrar o abismo em que sempre vivera. Será nesse abismo de incerteza que decide viajar sem destino. Um verbo de quem se procura em lugares virgens de história, aventurar-se como nunca havia feito. Como quem vive, de facto. Como quem 

mergulha. Como quem vive, enfim. Um braço que roça, acidentalmente, no seu. A certeza de um coração que lhe pulsa, que lhe transparece pelas veias. A prova de que uma viagem sem destino não existe, encontrou-a no momento exato, a hora certa de um amor parecia, finalmente, ter chegado. Sem nunca ter saído do lugar. Chamam-lhe paradoxo muitas vezes, mas são simplesmente os fios tecidos por Deus. 

“Naquele tempo, eu pensava que os homens eram sobretudo apreciados pelas histórias que irrompiam nas suas vidas, enquanto com as mulheres o mais provável era que fossem asfixiadas pelas que irrompiam nas delas. Porquê? Por que é que tinha de ser assim?” 

Chegou o amor, então. Entre as ironias de uma vida com enorme sentido de humor, chegou o momento desta mulher criar a sua própria história. Casou. Foi mãe. Descobriu o amor na serenidade dos gestos de um homem mais velho. Descobriu a maternidade na diferença de cada um dos seus três filhos. Tornou-se mulher. Aprendeu a cozinhar, a cuidar da casa, a cuidar de si, a ser mulher-a-dias e mulher dos dias do marido. E o tempo, juntamente com um vento consistente, levou-lhe mais anos. Levou-lhe o companheiro, dianteiro na idade e na vontade de viver. Ficou só. Enlutou e reavivou aquele vazio que sempre a definiu. 

São muitas as teorias de consolo quando a morte nos esfrega dois ou três estalos na cara. Nunca ninguém nos diz, de ânimo leve, que a morte vem revestida de vidas novas, mas vem. Fecham-se portas, abrem-se janelas. Vidas novas e uma diferente ânsia de viver. Se o amor parecia findo pela irreversibilidade dos corpos que adormecem para sempre, o desejo de realização e de plenitude reveste-se, agora, da necessidade de um trabalho. Descobre em si o talento da escrita que verá traduzido em inúmeros artigos cuidados sobre plantas e flores. Daisy foi feliz durante aqueles anos metódicos que lhe chegaram a granjear reconhecimento público, a máscara de um vazio suplantado pelo seu próprio trabalho. 

Todas as vidas parecem ser feitas desse ir e voltar. As boas e más horas que sempre nos ultrapassam os anseios. Daisy não seria diferente e se a realização profissional lhe vendeu alguns anos de felicidade e plenitude, rapidamente viria o relógio acertado na má hora de uma doença. A efemeridade do trabalho, tão bruscamente arrancado de si, fê-la entrar em depressão para, mais tarde, ressurgir como quem nasce das cinzas. Dizem que as más horas são tão necessárias como o pão de cada dia. Cair para levantar. Não levantar de qualquer maneira. Levantar na hora certa, no momento exato, no minuto do despertador, nem mais um, nem menos um. O minuto certo de quem soube esperar para se reerguer. Esse ir e voltar. 

A vida desta mulher continua e ela, certa de quem é, deixa-se ir com o vento, e tal como nasceu, assim morrerá: entregue e despojada ao que a vida lhe foi apontando. Horas felizes, horas amargas, horas nada, horas tudo. Daisy não se limitou a viver por viver como muitos poderiam pensar. Limitou-se a viver numa procura quente de si mesma, acreditando sempre no sentido de humor que só os afortunados de alma são capazes de enxergar. Dizem que vêem com os olhos de Deus. 

– Ela deixou que a vida lhe acontecesse. – Bem, e porque não? 

– Era como se… – Como se? – Como se ela estivesse sempre a perseguir um breve pensamento perdido com uma agulha e uma linha. – Receosa de olhar para dentro dela mesma. Para o caso de não haver lá nada. 

Carol Shields agita-nos e empurra-nos para a perseguição desse breve pensamento perdido. Será o destino final a resposta para o sentido da vida? Vivemos nós anos a fio para, num enfim já cansado, apenas chegar? Chegar onde? 

Caro leitor, se ainda me acompanha a esta hora, poderia queixar-se de que esta é apenas a história de vida de uma mulher banal, cinzenta e sem alaridos. Lembra-se de lhe falar que é a força, a história e a sua transversalidade que justificam a recomendação de um livro? «A memória das pedras» é o dedo na ferida para todos aqueles que buscam o sentido de si, e da vida, para lá de si mesmos. O estalo fatídico de que, afinal, a vida é feita desses pequenos nadas e que saber confrontá-los, num vento certeiro que empurra, é por si só viver. O verbo é terapêutico e cheio por si mesmo. Viver. Viver somente. E só assim a vida acontece. Só assim, nessa aparente banalidade. 

Sobre a autora: Carol Ann Warner Shields nasceu a 2 de Junho de 1935 em Oak Park, Illinois. Ficou conhecida, particularmente, pelo seu aclamado «A Memória das Pedras», vencedor Prémio Pulitzer de 1995. Faleceu no dia 16 de Julho de 2003 no Canadá. Saiba mais em https://www.carol-shields.com/ 

 

Texto e fotografia por Denise C. Rolo Blogue Literário «Ler(-te)» 

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