Astigmatismo ou redenção

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Matéria exposta: entre a alegoria e a intensidade do jogo

 por Luís Carmelo.

 Astigmatismo ou redenção é um boomerang que se atira ao ar. Perpassa névoas densas e fluxos de brancura, mas, depois da viagem, reentra pela janela e cai suavemente sobre a mesa, essa imensa metáfora do corpo que se inclina para ser.

A primeira parte do livro, “Astigmatismo”, composta por dez poemas, persegue aquilo que os estóicos descreviam como coisas obscuras por natureza. Névoas densas com passos perigosos por dentro. Na realidade, toda a saga inicial é metaforizada por uma entidade enigmática que se torna no “exponencial de sua grandeza/ ocupando demasiado espaço”. Trata-se da efígie de um déspota que se assume, dissimulado, na figura de um “severo enganador”, capaz de “usurpar a pauta” da existência e que deixa à sua volta, inevitavelmente, um imenso vazio. Mas um vazio assustador que gera “um vazio ao quadrado” e, mesmo assim, adulado, as “gentes sorriam-lhe contentes” perante a “calorosa recepção” com que as brindava. Assim a candeia da vida se aprestará sempre a “encandear os mais incautos”.

“Redenção” é o título da segunda parte do livro e deve ser vista como um jogo, ao invés da alegoria de “Astigmatismo” que remete para a assimetria da história, de todas as histórias. A desproporção caminha aí, não na forma cortejo, pois é ela mesmo um cortejo que desalinha os seus participantes, separando a grandeza ‘feita de cartão’ da perdição em forma de sorriso que é coisa própria de todos os mortais (essa ingénua “ilusão de um recomeço”).

Em “Redenção” tudo se joga na tensão entre o que à partida é negado (“nem tudo vem de cima” / “Não há absolvição”) e tudo aquilo que é efeito declarativo do próprio desejo, isto é, os tais fluxos de brancura: a claridade (“memória de pedra é coisa enxuta ”), a leveza (“pinta-se de branco o fruto/ suspendem-se as almas/ nos velhos braços do embondeiro”) e a corporalidade plena (“Actor: uma voz que exige o corpo todo”). Celan quase que faz aqui a sua aparição para que a síntese do jogo se realize em pleno: “uma árvore deixa fugir um bando de pássaros”.

Seja como for, a conclusão constrói-se a partir de constatações aparentemente chãs (“mais uma vida se apaga/ entre o indicador e o polegar/ como um cortejo de carnaval”) que se articulam com uma transcendência que parece operar ‘in media res’: “ou uma ressurreição/ e eu por aqui me quedei/ indo sem querer chegar”.

Por outras palavras ainda: estamos face a um jogo muito subtil que se expõe enquanto se oculta “até que alguma coisa resvale de mim e encontre o seu ponto de fuga.”

O epílogo, breve brado a parodiar a morte – “história: diz ao raio da velha que não me vista as ceroulas com pé” (…) “(ninguém morto veste colete…)” – trará ao leitor a terceira respiração deste livro, antes de o lugar em que se inscreve, a mesa, vir ao ser e se dar a ver com todo o fôlego que merece: “És o meu animal de estimação estático preferido/ cresci a contemplar o teu tórax lá no alto/ a esticar-me em pontas/ para descobrir os segredos do teu dorso/ fui cavaleiro dentro das muralhas invisíveis/ que circundam as tuas quatro patas/ e cresci na cadeira à tua frente…”.

Astigmatismo ou redenção é um livro felizmente sem chave que coloca, ao mesmo tempo, em cena a bruma e o brilho, a morte e a claridade, a mesa (farta de ser) e a sua severidade. No final, não há uma única palavra que se sinta circunscrita, pois aquilo que se salva acaba sempre por escapar ao insondável. Matéria exposta, pois então.

 

Lisboa 14 de Novembro de 2018.

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