LISBOA VERDE (BICA 0) – NECESSIDADES, UM JARDIM ESQUECIDO.

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Os jardins das Necessidades, também conhecidos por Tapada das Necessidades, são daqueles recantos lisboetas pouco conhecidos, que escapam às rotas costumeiras dos locais e ainda não foram descobertos pelos turistas que hoje inundam a cidade, ocupando 10 hectares discretamente recolhidos pelos muros que o cercam e pelo fronteiro Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE). A grande obra das Necessidades foi mandada erguer por D. João V em honra de Nossa Senhora das Necessidades, consistindo – a exemplo de Mafra, mas em menor escala e imponência – num conjunto ao estilo barroco, de um palácio para o Rei, uma igreja, um convento para uma congregação religiosa – neste caso os Oratorianos -, uma cerca conventual para os frades e uma praça barroca fronteira ao palácio, neste caso aberta ao Tejo.

A cerca foi desenhada numa perspectiva de produção para o convento, sem no entanto descurar as preocupações estéticas necessárias a um local tão nobre. O desenho seguia o estilo barroco, com uma rede de caminhos em que a linha recta se impunha, formando grandes alamedas que dividiam os diferentes tipos de produção. Junto aos edifícios – palácio e convento – situavam-se espaços de traçado mais elaborado, formando dois patamares ao estilo italiano: o palaciano Jardim de Buxo e a Horta dos Frades, espaços hoje pertencentes ao MNE e fora do acesso público.

D. João V nunca chegou a habitar no palácio e, depois de curtas permanências de membros da família real ou convidados, é com D. Maria II que o palácio retoma a sua real função – nomeadamente após o casamento da rainha com D. Fernando II – e que o jardim irá sofrer grandes mudanças que em muito alterarão a sua forma e função, transformando a cerca conventual de produção num jardim real para uso fruto da família real.

D. Fernando II foi o grande impulsionador das ideias românticas em Portugal e essas ideias eram incompatíveis com a cerca desenhada a régua e esquadro, como que demonstrando o poder do homem sobre a natureza. À luz das novas ideias, a natureza era um ideal a respeitar, seguir e copiar, nascendo aqui aquele que terá sido o primeiro jardim ao estilo paisagista em Portugal, seguindo uma corrente que teve a sua origem em Inglaterra.

Começando a sul, os jardins serão tomados por formas orgânicas, curvas e onduladas, buscando um ideal natural povoado de plantas exóticas com as mais diversas prove- niências, bem como de uma rica colecção de pássaros e outros animais, tais como cangurus, que integravam um pequeno jardim zoológico. Vai ser neste “novo” jardim que os reis educarão os príncipes – entre os quais os futuros reis D. Pedro V e D. Luís -, em estreito contacto com a natureza.

As ideias liberais vão ter nas Necessidades uma das suas primeiras expressões artísticas em Portugal, permitindo contar a história do país até final da monarquia a partir da história deste jardim. D. Carlos viveu aqui e foi daqui que D. Manuel fugiu para o exílio após o palácio ser bombardeado desde o Tejo por forças republicanas. Este é um jardim feito de história, mas interessa perceber o que chegou até aos nossos dias e pode ser visitado, pelo que proponho uma visita aos jardins das Necessidades.

A entrada principal, à esquerda da igreja, faz-se pelo jardim inglês, com os seus caminhos ondulados e lagos naturalizados onde preguiçosos patos flutuam. Aqui se encontraria no século XIX uma rica e diversa colecção de plantas que não sobreviveu ao correr do tempo. O espírito do lugar permanece ainda assim nas formas orgânicas, acentuado pelas marcas dos anos. À direita vislumbra-se uma elegante escadaria dupla com um nicho, por onde se acede ao Jardim de Buxo, hoje vedado ao público, mas que se pode espreitar por entre as grades do portão. No topo do jardim inglês encontra- se um clareira formada por um grande relvado, hoje o espaço mais utilizado do jardim, ocupado pontualmente por festivais de música ou por grupos em picnic solarengo. O relvado é emoldurado lateralmente por quatro fontes (duas bacias e dois leões) e encimado por um cenográfico muro cor-de-rosa ladeado por uma belíssima estufa circular, com uma elegante cúpula em vidro, e por uma casa de fresco, estranha construção que se destinaria a aclimatar plantas de climas frios, em contraponto com a estufa para plantas tropicais. O topo deste muro forma um belo belvedere, do qual se vislumbra, por entre a vegetação, o Tejo ao fundo. Neste patamar encontra-se uma zona gradeada com pequenos torreões, hoje abandonada, onde estaria o pequeno jardim zoológico real, com seus peculiares animais.

Subindo mais um pouco encontramos um grande lago circular, construção original do século XVIII, de onde saíam os caminhos rectos em forma de estrela da vetusta cerca conventual, coração do jardim barroco. No lugar onde se situava um observatório foi construído por D. Carlos o denominado Atelier da Rainha, construção em ferro e vidro bem típica dos finais do dezanove. Ao lado, a segunda clareira deste jardim densamente arborizado, uma cateira, de onde se adivinha a esplêndida vista que se teria ao longo do jardim, caso ao mesmo fosse feita uma sábia limpeza de vegetação.

Por aqui o visitante sentir-se-á dono deste espaço, tão poucas serão as pessoas que irá encontrar. Vencidos pelo declive ou desencorajados com o “ar” cada vez mais “selvagem” do jardim, poucos subirão até à zona mais alta do jardim, antigamente terras de semeadura, onde se encontra a estrutura mais antiga do jardim, um moinho anterior à obra das Necessidade e até ao terramoto, pois foi nesta zona que alguns nobres recolheram após esse desastre que devastou Lisboa.

Esta é uma visita abreviada, pois este jardim esconde outras surpresas que compensarão quem se aventure por entre os seus tranquilos caminhos, descobrindo assim um tesouro escondido desta cidade, que mereceria estar mais bem tratado e ser reconhecido como um dos maiores – e potencialmente mais bonitos – jardins de Lisboa.

Texto e fotografias por João Albuquerque Carreiras

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