Editorial BICA – NOITE

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“O que importa não é passear de noite mas deixar a noite passear-se em nós.” – Mia Couto

Quando era miúdo, ao contrário de quase todos os outros miúdos da minha idade, gostava da noite. Em abono da verdade, irritava- me um bocadinho que implicasse o fim das brincadeiras e o regresso a casa, mas em contrapartida adorava escapulir-me da cama e ir fazer companhia à Otília, que por qualquer razão que à época desconhecia nunca se deitava antes das quatro da manhã.  A Otília era uma espécie de segunda avó. Não havia nada que eu quisesse que ela não conseguisse arranjar. Às vezes parecia que fazia magia. Eu pelo menos gostava de pensar que fazia. Durante essas incursões noctívagas, resguardada dos olhares de censura complacente dos meus pais, descobria duendes no frigorífico que transformavam uma simples sanduíche num manjar dos deuses que eu comia vagarosamente na tentativa sempre frustrada de esticar as suas histórias até ao nascer do sol.

Esse amanhecer, descobri-o mais tarde, numa altura em que as histórias da Otília eram partilhadas com uma roda de amigos entre bifes panados acabadinhos de fazer e copos de vinho do Dão, com ela, o centro das atenções, cantando boleros e sambas brasileiros que aprendera durante uma estadia no Rio de Janeiro. Foram assim as minhas noites de infância e adolescência, sempre acompanhadas e surpreendentes, cheias de música e comidinhas acabadinhas de fazer. Por isso não é de estranhar que a minha descoberta das noites solitárias tenha chegado tarde. Tão tarde que me parecem recentíssimas. Não são necessariamente más ou angustiantes, mas perderam o brilho de outrora, talvez por isso, hoje, lhes prefira as manhãs.

No entanto, continuo a gostar de me escapulir à noite e a que ela me surpreenda, como aconteceu no mais bem guardado segredo das noites de Lisboa, o Desterro, onde um grupo de músicos extraordinários se perde, todas as quartas feiras, madrugada fora em entusiasmantes jam sessions electrónicas; ou no Carmo 81, em Viseu, durante o inesquecível combate de titãs entre The Legendary Tigerman e os Linda Martini; ou no conforto de casa, quando li o emocionante conto original que o Sandro William Junqueira escreveu para a Bica; ou quando acompanhei o João Albuquerque Carreiras ao Tabernáculo, para uma conversa sem tempo nem regras com o Hernâni Miguel.

É da noite que fala esta edição da Bica. A noite dos sem-abrigo, esquecidos pelas ruas da cidade, como nos lembra Paulo Aido. A noite mística e interior sobre a qual escreve o padre jesuíta Paulo Duarte. A noite dos monstros e fantasmas da infância da Marta Gonzaga e a noite de tantos e tantos que colaboraram para tornar mais esta edição da Bica uma realidade.

A todos votos de um Feliz Natal e Fantástico Ano Novo

João Moreira

 

 

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