A Agenda que quer transformar o mundo

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Em janeiro de 2018 fará dois anos que história foi feita. A cartilha para o Desenvolvimento Sustentável, o plano de ação da comunidade internacional para assegurar a longevidade do planeta, entrou em vigor legitimada pela ratificação efetuada pelos 193 estados membros da maior organização internacional do mundo.

A agenda 2030 das Nações Unidas une estes países em torno de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) que pretendem ser a referência para os agentes de mudança (Governos, ONG’s, setor privado e sociedade civil) para que, individualmente e/ou em conjunto, adotem práticas, políticas e prioridades que visam não só sensibilizar de forma alargada as populações sobre a premência do paradigma da sustentabilidade, mas acima de tudo ir mais longe e envolver de forma efetiva, provocando comportamentos e compromissos individuais e coletivos em todas as sociedades naquela que é uma causa maior: a sobrevivência do planeta. Neste sentido, os 17 ODS são complementares entre si mas também altamente dependentes, o sucesso da implementação de um, em maior ou menor grau, depende do sucesso de implementação de outros.

Por exemplo, para que seja possível um dia erradicar a fome (ODS1) é necessário fomentar o trabalho digno e o crescimento económico (ODS8), o que nunca poderá ser verdadeiramente potenciado sem uma efetiva igualdade de género (ODS5) que, por sua vez, só acontecerá em pleno se as mulheres tiverem acesso a uma educação de qualidade (ODS4). Esta é apenas uma das inúmeras correlações possíveis de fazer num puzzle complexo que, por vezes, choca com barreiras políticas, económicas, sociais e culturais que tanto dificultam uma maior concertação internacional e, consequentemente, a agilização mais e ciente desta Agenda transformadora que tem como pilares os denominados ”5 P’s”: pessoas, prosperidade, paz, parcerias e planeta, pilares de uma realidade que, em teoria, todos os estados-membros veem como comum, global e única.

No seu primeiro discurso à Assembleia Geral enquanto Secretário Geral da ONU identificava sete ameaças/desafios que merecem ação prioritária do seu mandato e que estão diretamente relacionados com a implementação desta Agenda: o perigo nuclear, o terrorismo, os conflitos, as alterações climáticas, o crescimento das desigualdades, as ameaças cibernéticas e a migração.

Com tantos dados em cima da mesa, este jogo internacional pode ser muito duro de jogar, sobretudo, quando se mudam as regras com tanta frequência. Aqui reside a maior qualidade do multilateralismo: a resiliência e a capacidade de negociação para que os interesses políticos beneficiem o maior número de pessoas. Com efeito, não é fácil alinhar os interesses de 193 atores, mas a Conferência do Clima que decorreu muito recentemente em Bona, na Alemanha, evidencia o sério compromisso, de (quase) todos os países do universo da ONU relativamente ao Acordo de Paris, assinado em 2015, em avançar com a implementação de medidas concretas para combater as alterações climáticas, com o objetivo de travar os episódios climatéricos devastadores que têm sido cada vez mais re- correntes nos últimos anos.

A filosofia  das Nações Unidas passa por ser o fórum agregador para conseguir debelar as ameaças que pairam sobre um mundo cada vez mais complexo, frenético, momentâneo e às vezes impulsivo, encurralando a inércia e promovendo a ação, um pouco em linha com o que grande pensador e cientista Albert Einstein afirmou um dia: “O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.”

No contexto desta nova fase da organização internacional, Portugal tem sido apontado, em várias dimensões, como um bom aluno pelos esforços feitos, quer a nível governamental, como da sociedade civil, na adoção da Agenda 2030. São inúmeros, ainda que muitas vezes pouco mediáticos, os projetos que estão em marcha tendo como substrato este novo paradigma, numa clara aposta na sustentabilidade, na mudança de comportamentos, com uma nova geração muito mais ciente das ameaças, mais ativista, mais consciente. Autarquias, associações de estudantes, instituições de solidariedade social, agências governamentais, empresas do setor privado têm entre mãos inúmeros projetos cujo racional parte de um, de vários ou de todos os ODS’s consoante a sua área de ação e objetivo concreto. De notar que o governo Português foi dos primeiros a entregar o relatório voluntário anual no qual explica de que forma as políticas públicas estão a contribuir para a implementação desta Agenda.

A crise financeira que se abateu sobre o mundo ocidental no início da presente década relegou o tema das alterações climáticas em particular, e o da sustentabilidade, em geral, para segundo plano na agenda política e mediática mas o próprio clima tem forçado os decisores a olharem com outra atenção esta problemática. Episódios climatéricos muito severos (veja-se o caso dos dramáticos incêndios florestais deste verão interminável) forçam a mudança que é transversal e obrigação de todos. “É tempo de acabar com as emissões suicidas.” afirmava António Guterres na reunião magna da ONU em setembro passado, apelo reiterado na Cimeira do Clima, em Bona.

Esta é apenas uma das dimensões que vão merecer no futuro um maior compromisso em torno de problemas que extravasam qualquer fronteira, cultura ou sistema político. As migrações, as ameaças cibernéticas e o terrorismo são apenas alguns exemplos das ameaças que os estados-membros enfrentam e que não conseguirão enfrentar de forma isolada. O multilateralismo é, por isso, fundamental e pedra basilar da ONU, fórum primordial para o debate e a ação internacional que, desejavelmente, logrará em garantir que em 2030 o mundo seja um lugar melhor.

Por: António Ferrari -Assessor de Comunicação da ONU para Portugal

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