A noite

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O tema desta edição tem tanto de encantador como de decadente – e até a decadência pode ser encantadora quando aproveitada da melhor forma, vejamos Warhol com a célebre The Factory nova-iorquina ou o Pete Doherty numa perspectiva mais próxima e actual.

O misticismo da noite sempre serviu de refúgio aos mais atrevidos, alegres, bon vivants, despreocupados, descarados, enérgicos, imprudentes, valentes, arrojados. Um sem fim de características que, mesmo aos mais alinhados, entusiasma encarná-las naquelas 6 horas de divertimento que pode começar com um gin de final de tarde e acabar às 8 da manhã com o hot dog na roulotte à porta do LUX ou qualquer outra discoteca no mundo. Um hot dog em Lisboa é um hot dog em Nova Iorque mas o que é a noite em Lisboa podia muito bem não ser a noite do outro lado do Atlântico, é que as diferenças cada vez se fazem notar menos. Infelizmente, na minha opinião. A proximidade actual e a globalização está a guiar-nos para uma uniformidade a vários níveis e a diversão nocturna é cada vez mais idêntica.

De Miami e de Ibiza chegam referências de DJs, tipo de festas e espaços, que estão a ser adoptados por todo o mundo. São as garrafas a chegar ao som da banda sonora do Rocky e miúdas descascadas a transportá-las, são as mesas que devem ser reservadas através dos RPs que controlam a noite e quem entra e quem se destaca no espaço. Escolhem quem tem melhor visibilidade para o convidado do espectáculo mas não só, é que se for uma figura conhecida da praça deve também estar visível aos outros numa mesa bem central para que se repare que aquele é um espaço frequentado pelo famoso jogador da bola ou de outro desporto qualquer. E se este famoso meter um post nas redes sociais com a devida location, fui então aí é que foi uma noite que correu bem ao nível da promoção. “Óscar, leva-lhe lá outra garrafa à mesa!”

Isto acontece por todo o mundo, sejam as ditas festeiras Miami e Ibiza como também mesmo aqui ao lado em Lisboa e Porto, ou Barcelona, Budapest, Londres, Paris, Milão, etc. e tal. Ainda no outro dia, num sábado que se adivinhava calmo, fui jantar com um grupo de amigos e filharada a um conhecido espaço lisboeta, eram 23h e já andavam os empregados em cima do balcão a servir bebidas à boca das miúdas, graúdas, bifas (o termo bifas é utilizado para chamar às turistas) que aguardavam mesa para sentar. Ou eles se esticaram ou nós levámos a criançada ao sítio errado mas isso fica para cada um de vocês decidir debaixo da vossa manta das pernas.

Estávamos no LIv ou no Ushuaia, certo? É em sítios como estes que as grandes estrelas dos gira-discos – quais gira-discos dizem vocês e bem, hoje em dia uma pen é suficiente – actuam, a grande ambição é chegar a estas casas que os vão ajudar a lançar-se para concertos por todo o mundo. Estes Djs são hoje em dia mais aclamados do que os frontmen de bandas rock, sozinhos têm cachets mais altos que bandas inteiras que se fazem deslocar com, pelo menos, guitarrista, baixo, baterista, vocalista e todo o staff indispensável qualquer que seja a dimensão do concerto. Com certeza já ouviram falar do David Guetta ou Steve Aoki, personagens incontornáveis das noites mais escorregadias desse mundo. Ou também Calvin Harris, Skrillex, Tiesto, Diplo ou The Chainsmokers, todos eles na lista dos DJs mais bem pagos do mundo, tendo, pelos vistos, o Calvin Harris ultrapassado David Guetta este ano, ao amealhar mais 23 milhões de dólares. Ah, e diz o ranking que o Guetta desce para sétimo em 2017. Ainda assim deve poder continuar a deslocar-se de jacto privado de cidade em cidade, tal como todos os outros aqui listados. E a propósito disso recomendo que vejam o documentário muito bem feito do Steve Aoki na NETFLIX onde se pode ver o estilo de vida de um DJ deste patamar. O avião onde descansa para dar dois espectáculos na mesma noite em Nova Iorque e Londres, o staff reduzido (que implica custos reduzidos e faz inveja a qualquer empresário), os hotéis top! Já depois das 5 estrelas. No fundo, a vida de rock star sem o ser. Haverá algum novo termo que os millennials usam? Deejay Star, será?

Mas afinal, o que aconteceu às festas de garagem com o amigo que tem uns LPs bons e novos de rockalhada? Será que não davam umas boas fotos de Instagram?

É Dezembro, deveria estar eu a escrever sobre a noite de Natal, os presentinhos deixados por baixo da árvore, as bolachas e copo de leite ao Pai Natal? Se calhar devia, mas com certeza que nenhum de nós ia achar a mesma coisa. Mas já agora, deixem-me desviar a manta e ir compor a lareira, Bom Rapaz que é Bom Rapaz não deve deixar apagar o fogo.

Tiago Froufe

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