Conversa à volta do vinho

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“O pior dos crimes é produzir vinho mau, engarrafá-lo e servi-lo aos amigos” – Aquilino Ribeiro

Hugo Chaves, o engenheiro alimentar especializado em enologia a quem Celso de Lemos incumbiu a tarefa de fazer vinho do Dão nas terras de família, acrescentadas de uns tantos hectares adquiridos para o efeito, tem o ar atarefado dos homens da lavoura a quem o negócio prospera. Numa sala enorme, virada à vinha, sentado a uma secretária coberta por papéis com anotações à mão e por revistas de enologia, recebe-nos indo directo ao assunto:

Eu estou aqui desde 1997. Já lá vão 18 anos. Tinha acabado de fazer um Bacharelato em Engenharia Alimentar em Viseu e fui convidado para vir para aqui, porque tinha relações familiares com o Celso que é o proprietário. A ideia inicial não era fazer algo destas dimensões. Era criar um espaço onde ele pudesse vir descansar com a família e trazer alguns amigos e clientes e onde se produzisse um bom vinho do Dão. O Celso tem um amor desmedido a esta terra. A Viseu. Para terem uma ideia, um dia estávamos juntos numa feira de vinhos em Dusseldorf e ele esteve duas horas a ouvir o relato do Académico de Viseu. – Hugo com um sorriso rasgado.

– Já trabalhando aqui, fui estudar enologia para Trás-os-Montes. O meu percurso académico foi este, sempre acompanhado pelo trabalho, que aqui na Quinta de Lemos, começou como disse, há 18 anos, adquirindo as propriedades, plantando as vinhas, orientando a construção da adega.

As vossas vinhas não têm a distância habitualmente usada na região. O compasso é diferente, não é?

Engraçado que tenham reparado. De facto, não têm o mesmo compasso e eu passo a explicar porquê. No período que mediou entre 1997, quando o projecto começa e 2000, quando iniciamos a plantação das vinhas, deram-me a possibilidade de fazer diversos estágios, na Califórnia, em Bordéus, na Borgonha, para perceber melhor este mundo dos vinhos. Por outro lado, à medida que fomos ganhando dimensão de área, o projecto começou a ganhar outros contornos. A ideia inicial de fazer um vinho para amigos e clientes deu lugar a outra, bem mais ambiciosa de criar um dos melhores vinhos do mundo, usando as nossas variedades e a nossa gente. Por isso, os estágios que realizei e as visitas que fiz a vinícolas do mundo inteiro tinham um único objectivo, perceber como havíamos de plantar a vinha com a finalidade de atingir o objectivo de fazer um dos melhores vinhos do mundo. Acabámos por decidir que a melhor forma de plantio era a praticada em Saint Emillion e foi a que adoptámos. A condução de 1 metro e meio por um metro, 6000 plantas de densidade. Tecnicamente, fiquei convencido que, para esta dimensão, este era o melhor método para a plantação da vinha em termos vitícolas e continuo convencido disso. Para mim é o melhor sistema de condução e a melhor densidade.

Isto porque, a nossa região é muito semelhante em termos climáticos à de Bordéus, no caso a Saint Emillion, com uma única diferença que é o tipo de solo. Enquanto lá é argilo-calcário, nós aqui temos um solo de areia granítica, o que imprime um resultado completamente distinto aos vinhos. Qual é o nosso maior problema aqui no Dão e isso é conhecido do produtor e do consumidor? É a constância. Podemos fazer o melhor vinho do mundo, mas só o conseguimos de 1 vez sobre 10. Não temos regularidade na qualidade da produção. Não é na quantidade é, sobretudo, na qualidade. Na regularidade da qualidade é que temos um problema grande, daí a desconfiança do consumidor e a não afirmação da região.

Acompanhe o resto da entrevista aqui.

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